Por que a escassez de profissionais ameaça adequação à reforma tributária?

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Por Waldir Bertolino

Se a escassez de profissionais é uma realidade que já afeta o ambiente de negócios nacional há alguns anos, em segmentos como o de tecnologia e contabilidade, esse desafio é ainda mais complexo e ganha novas camadas com o progressivo avanço da Reforma Tributária no país, principal mudança estrutural em nosso sistema fiscal das últimas décadas.  

Sobre este gap de talentos, é válido mencionar um levantamento da Endeavor com dados da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), o qual aponta que o Brasil enfrentará uma escassez de 530 mil profissionais de tecnologia ainda em 2025. Já uma pesquisa realizada pela Deloitte apontou que 63% das companhias brasileiras relatam dificuldades na procura de tributaristas qualificados. 

Dentro desse contexto, com os novos passos da Reforma Tributária a partir da aprovação da Lei Complementar nº 214/25, estamos falando de um cenário de risco significativo que, no limite, coloca em marcha crítica o próprio processo de adaptação das empresas às novas exigências da Reforma Tributária.  

O copo meio cheio desse debate está na própria tecnologia, haja vista que, para mitigar tais impactos, uma parcela significativa do mercado está acelerando seu processo de transformação digital, tendo em vista tanto a realidade de escassez de mão de obra quanto a necessidade de aumentar a produtividade. 

E essa jornada tem ganhado escala, dentre outros pontos, por meio da migração dos sistemas de gestão empresarial (ERPs) para a nuvem, fator que traz um diferencial competitivo importante no processo de adequação a Reforma, uma vez que os recursos gerenciais voltados a área fiscal podem ser atualizados na medida em que as novas regras tributárias entram em vigor no país. 

Isso explica, por exemplo, porque a nuvem é uma tendência concreta que cada vez mais é adotada no Brasil: de acordo com dados do Synergy Research Group, o Brasil está entre os 5 que apresentaram maior crescimento no consumo de computação em nuvem no mundo. Além disso, a cloud computing já representa em média 42% do processamento nas empresas brasileiras, segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).  

E esse movimento não ocorre por acaso. Ao migrar para a nuvem, dentre outros benefícios, as empresas podem garantir maior segurança e eficiência no cumprimento das novas obrigações fiscais. Além disso, é possível reduzir expressivamente custos com infraestrutura, potencializar a automação de processos e, consequentemente, ganhar eficiência para vencer os obstáculos relacionados à escassez de mão de obra. 

Em outras palavras: com o modelo cloud, essa jornada é conduzida sem que se perca de vista a necessidade de que a gestão de impostos e obrigações acessórias esteja sempre atualizada segundo as novas exigências que a Reforma Tributária irá impor às empresas já a partir de 2026. 

Gap de talentos no radar  

Conforme mencionado anteriormente, a escassez de mão de obra especializada – que é uma queixa do mercado como um todo com 80% dos empregadores relatando desafios na contratação de talentos segundo a ManpowerGroup – afeta especialmente o mercado de tecnologia e a área fiscal.  

E, pensando no setor contábil e fiscal, no contexto atual e de médio prazo, esse cenário tende a se agravar, pois, entre 2026 e 2033 – período em que deve vigorar a transição de um sistema para o outro, com as novas regras –, os contribuintes terão de lidar com dois sistemas tributários coexistindo, uma perspectiva que atribui novas e significativas complexidades à atividade tributária e fiscal.  

Tal panorama, por sua vez, só reforça a necessidade de celeridade na informatização dos processos tributários do mercado nacional, que precisa de plataformas mais inteligentes e ágeis em seus fluxos de atualizações sistêmicas, de modo a garantir conformidade e eficiência operacional nos negócios do país, ao mesmo tempo em que respondem com automação de ponta para o gap de talentos que cresce no Brasil. 

Nuvem como base estratégica

Com tudo isso, a migração para a nuvem pode ser um caminho estratégico para negócios que precisam se adaptar rapidamente às mudanças estruturais do Brasil.  

Ao adotar o conceito evergreen, aliás, as atualizações cloud ocorrem sem a necessidade de intervenções complexas ou aquisição de licenças custosas, pontos que trazem tanto maior previsibilidade financeira para as empresas quanto uma maior garantia de suporte na longa jornada de transição da Reforma Tributária. 

Além disso, ao migrar para a nuvem, as organizações reduzem sua dependência de talentos internos especializados, pois transferem a gestão de infraestrutura e segurança para os provedores – reduzindo, nesse sentido, a dependência de mão de obra especializada também na tecnologia.

Por fim, toda mudança estrutural traz consigo desafios, mas, por meio da tecnologia – sobretudo do apoio de sistemas já familiarizados com a lógica do IVA e adequados às complexidades da realidade fiscal brasileira – eles podem ser transformados em oportunidades, favorecendo o crescimento de empresas que enxergam na inovação um trunfo para o presente e o futuro tributário do país.  


Waldir Bertolino é CEO da Infor Brasil.


Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.


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